O Global Risks Report 2026, publicado pelo World Economic Forum, retrata um mundo que entra na segunda metade da década em um estado de incerteza estrutural.
Esse cenário é marcado por competição geoeconômica, fragmentação política, aceleração tecnológica e pelo enfraquecimento dos mecanismos tradicionais de cooperação internacional.
Nesse contexto, a cibersegurança deixa de ser um tema estritamente técnico e passa a ocupar um papel central na estabilidade econômica, social e geopolítica global.
Embora o relatório trate de 33 riscos globais interconectados, a insegurança cibernética (cyber insecurity) aparece de forma recorrente entre os riscos mais severos no curto, médio e longo prazo.
Essa relevância se deve, especialmente, à sua relação direta com outros vetores críticos, como desinformação, infraestrutura crítica, inteligência artificial, conflitos entre Estados e desigualdade social.
Neste artigo, analisaremos os principais insights do Global Risks Report 2026 relacionados à cibersegurança.
Exploraremos por que o risco digital está crescendo, como ele se conecta a outras ameaças globais e o que isso significa para governos, empresas e a sociedade.
1. Um mundo mais competitivo e digitalmente vulnerável
O relatório define 2026 como o início de uma “era da competição”, onde a cooperação multilateral cede espaço à rivalidade entre blocos econômicos, grandes potências e alianças regionais.
Esse novo cenário tem implicações diretas para o ambiente cibernético.
À medida que instrumentos econômicos, tecnológicos e digitais passam a ser usados como armas geopolíticas, o ciberespaço se consolida como um campo estratégico de disputa.
Ataques cibernéticos, espionagem digital, sabotagem de infraestruturas críticas e operações de influência tornam-se ferramentas centrais de poder estatal e paraestatal.
Nesse contexto, o relatório posiciona a insegurança cibernética entre os dez principais riscos globais no horizonte de dois anos.
Essa avaliação reflete a percepção de líderes e especialistas de que ciberataques deixaram de ser eventos excepcionais e passaram a representar ameaças sistêmicas e recorrentes.
2. Cibersegurança como risco sistêmico global
Um dos pontos mais relevantes do Global Risks Report 2026 é a forma como ele trata a cibersegurança não como um risco isolado, mas como um fator amplificador de crises.
O mapa de interconexões de riscos apresentado no relatório mostra que a insegurança cibernética está fortemente conectada a:
- Desinformação e manipulação de informações;
- Disrupções de infraestrutura crítica;
- Conflitos armados entre Estados;
- Polarização social e erosão da confiança pública;
- Concentração de tecnologias estratégicas;
- Resultados adversos do uso da inteligência artificial.
Essa interdependência significa que falhas em segurança digital podem desencadear ou intensificar crises em outros domínios, como energia, saúde, finanças, transporte e serviços públicos.
Ataques cibernéticos contra redes elétricas, sistemas financeiros, cadeias de suprimentos ou plataformas de comunicação podem gerar impactos econômicos e sociais comparáveis aos de desastres naturais ou conflitos armados.
3. Infraestrutura crítica no centro da ameaça cibernética
O relatório dedica atenção especial à crescente vulnerabilidade da infraestrutura crítica, que inclui redes de energia e água, telecomunicações, transporte, sistemas financeiros e serviços governamentais.
A combinação de três fatores agrava esse cenário:
- Digitalização acelerada, muitas vezes sem investimentos proporcionais em segurança;
- Infraestruturas legadas, antigas e mal preparadas para ameaças modernas;
- Aumento da sofisticação dos ataques, incluindo ransomware, ataques a cadeias de suprimentos e exploração de vulnerabilidades zero-day.
A cibersegurança aparece, assim, como um elemento-chave da resiliência nacional e econômica.
Países que não conseguem proteger suas infraestruturas digitais ficam mais expostos à coerção geopolítica, instabilidade social e perdas econômicas significativas.
4. Desinformação, cyber e erosão da confiança
Outro achado crítico do Global Risks Report 2026 é a centralidade da desinformação e da manipulação digital como riscos de curto prazo.
Esse fenômeno está intimamente ligado à cibersegurança.
Ambientes digitais inseguros facilitam:
- Vazamentos de dados usados para campanhas de influência;
- Sequestro de contas e identidades digitais;
- Uso de bots e redes coordenadas para amplificação de narrativas falsas;
- Ataques a processos eleitorais e instituições democráticas.
A erosão da confiança pública, apontada como um risco societal crescente, é alimentada por falhas na governança digital e na proteção do ecossistema online.
A cibersegurança, nesse sentido, torna-se um pilar da estabilidade democrática.
5. Inteligência artificial e novos riscos cibernéticos
O relatório aponta que os resultados adversos da inteligência artificial são o risco tecnológico que mais cresce quando se compara o curto e o longo prazo.
Essa tendência tem implicações diretas para a cibersegurança.
A IA amplia o poder ofensivo e defensivo no ciberespaço:
- Ataques tornam-se mais rápidos, personalizados e difíceis de detectar;
- Deepfakes e conteúdos sintéticos elevam o impacto da desinformação.
- Ferramentas automatizadas reduzem a barreira de entrada para cibercriminosos;
- Sistemas críticos baseados em IA tornam-se novos alvos de exploração.
Ao mesmo tempo, a governança global da IA ainda é incipiente, e o relatório destaca a dificuldade de estabelecer regras comuns em um mundo fragmentado.
Isso cria um vácuo regulatório que pode ser explorado por atores mal-intencionados.
6. Fragmentação global e falhas de governança cibernética
Um dos diagnósticos mais contundentes do Global Risks Report 2026 é o enfraquecimento do multilateralismo.
Esse fenômeno afeta diretamente a capacidade global de lidar com ameaças cibernéticas.
A ausência de padrões internacionais sólidos para:
- Responsabilização por ataques cibernéticos;
- Compartilhamento de informações sobre ameaças;
- Proteção de cadeias globais de suprimentos digitais;
- Uso militar do ciberespaço.
Essas lacunas dificultam respostas coordenadas entre países e aumentam significativamente o risco de escalada de conflitos entre Estados.
Nesse cenário, a cibersegurança torna-se refém da lógica de competição geopolítica, em detrimento de abordagens cooperativas capazes de fortalecer a resiliência digital global.
7. Impactos para empresas e organizações
Para o setor privado, o relatório deixa claro que a cibersegurança já não pode ser tratada apenas como um tema de TI.
Ela se insere diretamente na gestão de riscos corporativos, na continuidade dos negócios e na reputação das organizações.
Empresas enfrentam:
- Aumento de ataques direcionados e ransomwares;
- Maior exposição a riscos geopolíticos digitais;
- Dependência de cadeias de suprimentos tecnológicas vulneráveis;
- Pressões regulatórias crescentes.
Nesse contexto, o Global Risks Report 2026 reforça a necessidade de abordagens integradas de risco, que conectem cibersegurança, estratégia, compliance, governança e resiliência operacional.
8. Considerações finais
O Global Risks Report 2026 deixa uma mensagem clara: a cibersegurança é um dos pilares centrais da estabilidade global na próxima década.
Em um mundo marcado por competição geoeconômica, aceleração tecnológica e polarização social, a segurança digital não é apenas um desafio técnico, mas um tema estratégico de primeira ordem.
Ciberataques, falhas de infraestrutura digital e uso malicioso de tecnologias emergentes têm o potencial de desencadear crises em cascata, afetando economias, governos e sociedades inteiras.
Ao mesmo tempo, a fragmentação da governança global dificulta respostas coordenadas e aumenta o risco sistêmico.
Diante desse cenário, investir em cibersegurança significa investir em resiliência, confiança e capacidade de adaptação.
Para as organizações, compreender os achados do Global Risks Report 2026 é um passo essencial para enfrentar um futuro em que o risco digital será cada vez mais determinante.
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