Incidentes envolvendo terceiros, vazamentos na cadeia de suprimentos e falhas em fornecedores estratégicos estão entre as principais causas de impactos financeiros, operacionais e reputacionais.
Um equívoco recorrente na gestão de riscos cibernéticos é acreditar que avaliações, auditorias e relatórios anuais de terceiros garantem segurança, conformidade e resiliência.
É nesse contexto que o TPCRM (Third-Party Cyber Risk Management) se consolida como uma necessidade estratégica.
Neste artigo, discutimos por que auditorias anuais são insuficientes, como a falta de visibilidade e integração ampliam os riscos digitais e de que forma o TPCRM contínuo representa uma mudança de paradigma.
Também abordamos os impactos da LGPD e o papel da automação e da inteligência artificial na viabilização de uma governança integrada e contínua.
1. Ecossistemas interconectados e superfícies de ataque expandidas
A transformação digital dissolveu as fronteiras tradicionais de segurança.
Dados sensíveis, processos críticos e ativos estratégicos já não estão restritos ao perímetro interno das organizações.
Eles circulam por fornecedores de tecnologia, provedores de cloud, parceiros logísticos, empresas de marketing, plataformas financeiras e inúmeros outros terceiros.
Cada nova integração agrega agilidade e escala ao negócio, mas também amplia significativamente a superfície de ataque.
Um único fornecedor com controles frágeis pode se tornar o vetor inicial para ataques de ransomware, vazamento de informações sensíveis ou comprometimento de credenciais privilegiadas.
O problema é que auditorias anuais não acompanham essa dinâmica.
Um fornecedor classificado como “baixo risco” hoje pode, em poucos meses, passar por uma aquisição, alterar sua arquitetura tecnológica, terceirizar parte de suas operações ou sofrer um incidente relevante.
Quando a próxima auditoria ocorrer, o impacto já terá se materializado.
2. Riscos associados à falta de visibilidade nas cadeias de suprimentos
Estudos e análises de incidentes demonstram que uma parcela significativa dos ataques bem-sucedidos envolve terceiros.
Isso ocorre porque fornecedores, em muitos casos, não possuem o mesmo nível de maturidade em cibersegurança que grandes organizações, embora tenham acesso direto a dados, sistemas e processos críticos.
Esse cenário se agrava quando, dentro da própria organização contratante, cada área enxerga apenas uma parcela do risco:
- Compras avalia critérios comerciais e operacionais;
- Jurídico foca em cláusulas contratuais e responsabilidades;
- Compliance observa requisitos regulatórios;
- TI e Segurança lidam com eventos técnicos e alertas.
Entre os principais riscos cibernéticos associados a terceiros, destacam-se:
- Falhas em controles de acesso e na gestão de identidades;
- Ausência de monitoramento contínuo de ativos expostos à internet;
- Ambientes desatualizados ou sem gestão adequada de vulnerabilidades;
- Dependência excessiva de subfornecedores pouco visíveis;
- Inexistência de planos estruturados de resposta a incidentes e continuidade.
Auditorias anuais, normalmente baseadas em checklists e evidências declaradas, raramente capturam esses riscos de forma eficaz.
Elas tendem a avaliar políticas, processos documentados e intenções, mas não o comportamento real de segurança ao longo do tempo.
O TPCRM contínuo rompe com essa limitação ao tratar o risco como processo vivo, dinâmico e em constante transformação e não como um evento isolado.
3. Por que auditorias anuais de terceiros são insuficientes?
Auditorias tradicionais têm seu valor, especialmente do ponto de vista regulatório.
No entanto, quando utilizadas como principal mecanismo de gestão de riscos de terceiros, tornam-se insuficientes.
Essa limitação é ainda mais evidente em organizações complexas onde as responsabilidades estão distribuídas entre múltiplas áreas.
Entre suas principais limitações das auditorias, destacam-se:
- Visão estática do risco: auditorias oferecem uma fotografia de um momento específico. Em um cenário de ameaças em constante evolução, essa imagem se torna obsoleta rapidamente;
- Dependência excessiva de autoavaliações: questionários respondidos pelos próprios fornecedores refletem percepções e intenções, não necessariamente práticas reais. Vieses, interpretações equivocadas e omissões são comuns;
- Baixa capacidade de priorização: sem dados contínuos, torna-se difícil diferenciar riscos críticos de ruídos operacionais. O resultado é a incapacidade de direcionar esforços para o que realmente importa;
- Desconexão com a operação de segurança: relatórios de auditoria costumam permanecer restritos às áreas de Compliance, Jurídico ou Compras, sem integração efetiva com SOCs, times de risco ou resposta a incidentes.
Esse modelo contribui para uma postura reativa, na qual a organização identifica falhas apenas quando um incidente já está em andamento.
4. Uma mudança de paradigma em direção ao TPCRM contínuo
O TPCRM contínuo propõe uma ruptura com esse modelo tradicional.
Em vez de avaliar terceiros em ciclos longos e previsíveis, a abordagem contínua estabelece monitoramento permanente, contextualizado e orientado ao risco real.
Dessa forma, áreas como TI, Compras, Jurídico e Compliance passam a operar a partir de uma visão compartilhada de risco cibernético.
Essa mudança se apoia em pilares como:
- Monitoramento contínuo da postura de segurança de terceiros;
- Avaliação dinâmica de risco baseada em criticidade e exposição;
- Integração com processos contratuais, regulatórios e de resposta a incidentes;
- Uso de automação para reduzir ruído, eliminar retrabalho entre áreas e aumentar a eficiência organizacional;
- Visibilidade consolidada da cadeia de suprimentos digital.
Nesse modelo, a pergunta deixa de ser “este fornecedor estava em conformidade no último ciclo?” e passa a ser “qual é o nível de risco deste fornecedor agora?”.
Essa mudança desloca o foco do passado para o presente, permitindo decisões mais alinhadas à realidade operacional e ao apetite de risco da organização.
O TPCRM contínuo não deve ser tratado como uma iniciativa isolada da segurança da informação.
Uma governança madura da cadeia de suprimentos digital inclui classificação de fornecedores por criticidade e definição clara de requisitos mínimos de segurança.
Também pressupõe monitoramento proporcional ao risco, cláusulas contratuais alinhadas ao contexto cibernético e processos claros de resposta a incidentes.
Com essa abordagem, o TPCRM deixa de ser um entrave operacional e passa a atuar como habilitador de negócios.
Isso permite inovação, expansão do ecossistema digital e maior controle, previsibilidade e resiliência organizacional.
5. LGPD e corresponsabilidade: o risco não pode ser terceirizado
No contexto brasileiro, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) reforça a necessidade de uma abordagem contínua na gestão de terceiros.
A legislação estabelece o princípio da corresponsabilidade, deixando claro que a terceirização de atividades não elimina a responsabilidade do controlador de dados.
Na prática, isso significa que a organização pode ser responsabilizada por:
- Falhas no processo de seleção e qualificação de fornecedores;
- Ausência de diligência contínua em compliance;
- Falta de cláusulas e controles jurídicos adequados;
- Falhas na detecção, resposta e coordenação técnica de incidentes cibernéticos.
Auditorias anuais, isoladamente, dificilmente sustentam uma defesa consistente diante de incidentes envolvendo dados pessoais.
Reguladores e autoridades esperam evidências de governança contínua, não apenas de conformidade documental.
O TPCRM contínuo permite demonstrar diligência ativa, rastreabilidade de decisões e proporcionalidade na resposta aos riscos, elementos essenciais em cenários regulatórios e jurídicos.
6. Automação e IA como viabilizadores da governança contínua
Um dos principais desafios do TPCRM contínuo é a escala.
Grandes organizações lidam com centenas ou milhares de terceiros, cada um com níveis distintos de acesso, criticidade e exposição.
Gerenciar esse volume de forma manual é, simplesmente, inviável.
Nesse contexto, automação e inteligência artificial tornam-se viabilizadoras da governança contínua e integrada.
Soluções avançadas permitem:
- Coletar informações de múltiplas fontes internas e externas;
- Correlacionar dados técnicos, contratuais e regulatórios;
- Identificar alterações relevantes no perfil de risco de fornecedores;
- Reduzir falsos positivos e priorizar riscos reais;
- Gerar alertas acionáveis, e não apenas volume de notificações.
A IA contribui ao identificar padrões, antecipar tendências e apoiar decisões estratégicas, deslocando o foco do excesso de dados para inteligência contextualizada.
7. Considerações finais
Auditorias anuais não são inúteis, mas não são suficientes.
Em um cenário marcado por ameaças dinâmicas, cadeias de suprimentos digitais complexas e responsabilidades legais compartilhadas, confiar apenas em avaliações pontuais é assumir riscos desnecessários.
O TPCRM contínuo representa a evolução natural da maturidade organizacional ao conectar TI, Compras, Jurídico e Compliance em uma gestão unificada de riscos cibernéticos.
Ele substitui a ilusão de controle por visibilidade real, inteligência acionável e governança permanente.
Mais do que uma mudança tecnológica, trata-se de uma mudança cultural: sair de um modelo reativo e documental para uma abordagem proativa, integrada e orientada à resiliência.
Em um mundo onde o risco não tira férias, a segurança também não pode ser anual.
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